
Acordei bem cedo hoje. Lembrei de um dia da minha infância... Certa manhã, saí da cama tão cedo quanto hoje, espreguicei- me e soltei um longo e gostoso sorriso ao abrir a janela de meu quarto: estava chovendo! Esse não era um motivo para voltar à cama, muito menos uma desculpa para "perder" o dia com vídeo-game; dalí a poucos minutos, ainda de jejum, eu estaria correndo na rua, trajando somente uma cueca e, por incrível que pareça, um gesso na perna. Deus, não lembro qual era a perna machucada, só pensava em aproveitar a chuva, não lembrava nem do frio e nem da roupa.
Estando na rua, senti- me um rei: aquela chuva era minha. Deus a mandou para minha diversão e eu desfrutava-a com toda liberdade. Nunca tomei banho de cachoeira. E daí? Eu tinha a minha própria bica! Quem se importava que ela tinha nascente no telhado da vizinha? Ela terminava na minha própria rua, para meu inteiro deleite.
Eu tinha uns cinco anos. Lembrei disto porque hoje, quando acordei, estava chovendo. Mas eu não queria ficar acordado, preferia passar o resto dos tempos deitado e que só me acordassem quando eu estivesse morto, de preferência com o café-da-manhã. Droga! Nem Deus respeita mais um coração ensanguentado? Pra piorar as coisas, a sensação térmica de zero absoluto não me deixou cogitar a hipótese de abrir a geladeira para preparar uma refeição que incluísse leite. Afinal, por que alguém guardaria alguma coisa na geladeira, se estávamos praticamente no Pólo Sul? Não... Tudo errado! Piorou quando me chamaram, gritando, para tirar a maldita roupa do varal -- quem coloca roupa no varal em dia de chuva? -- Acabei eu: molhado, no quintal de minha casa, olhando para as gotas caindo e pensando na relatividade das coisas. Esbocei um riso meio de lado, de ironia, confesso, mas em seguida eu ria de mim, da minha situação... Era engraçada. Eu ria sozinho no quintal de minha casa, debaixo da chuva, sob o olhar desconfiado da minha vira-lata -- protegida da água -- que tentava me fazer inveja. Por pouco não conseguiu -- ela está grávida. Mas, por um momento, voltei a ser criança. Esquecí a dor que carregava no peito. Achei que Deus tinha mandado aquela chuva para mim, uma forma de bênção, lavando a alma. Outra chance de ser feliz. Todo dia é um novo começo -- ouví na televisão. Ah!, a roupa? Esquecí dela também.
